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28 abril 2013

Viajar não interessa para onde

Num mundo comprimido pela globalização, democratizou-se a possibilidade de viajar, porque, à partida, tudo é mais perto e mais barato. Daí uma nova necessidade que assola o seu humano: a de resistir à tendência de nos fixarmos num lugar, a de permanentemente mudar de sítio. Mas mudar de sítio será sempre a melhor e mais económica maneira de ficar no mesmo lugar. Talvez por essa razão sejo o aeroporto o lugar que melhor simboliza e representa o mundo globalizado. E a sua tragédia, pelo tempo que aí se perde, à espera das malas que se transviaram.

"Com a compressão do tempo que carateriza a globalização, generalizou-se a valorização do meio de transporte, e este leva a melhor sobre a viagem em si mesma. No momento em que escrevo, os painéis publicitários nos cais do metro de Paris propõem uma estadia de um fim-de-semana em Hong-Kong, ou seja, umas férias em que a duração da deslocação é maior que a da estadia. No fascínio pela velocidade, o ato de partir predomina sobre o destino da partida. Daí decorre o sucesso das viagens «em saldo», postas a leilão alguns dias antes da partida. A escolha do destino é feita por defeito. Desejávamos ir a Marraquexe e acabamos por ir a Túnis. A localização do destino tem menos importância que o facto de se partir - o que permanece intocável é a escolha do meio de transporte, o avião. E certamente também o caráter onírico do trajeto, do itinerário. Já um século antes, Passepartou, o criado que acompanhava Phileas Fogg na sua tentativa de bater o recorde da volta ao mundo, dizia: «Vamos tão depressa que até parece que viajo em sonho.» (Jean-Marc Salmon, Um Mundo a Grande Velocidade, Porto, Ambar, 2002, p. 31)

15 setembro 2012

Globalização - A Humanidade está unida por uma imaginação comum



“Do outro lado do planeta, num longínquo recanto da Amazónia, junto da fronteira entre a Bolívia e o Brasil, surge a mesma promessa ao longo da rua. Em plena floresta virgem, o grupo industrial de construção Mendes Júnior, de São Paulo, faz publicidade em grandes painéis a vivendas individuais inspiradas no modelo norte-americano, idílicas, requintadas e grandes consumidoras de recursos naturais. Em sórdidas cabanas, à beira das águas turvas do rio Purus, jovens caboclos, os mestiços descendentes dos Índios e dos escravos negros, discutem as medidas da nadadora Pamela Anderson, da série televisiva californiana Baywatch, como se se tratasse da filha do vizinho. Ajudados por leitores de vídeo e cassetes provenientes de Hollywood, os negociantes de madeira corrompem a poucas tribos índias que ainda sobrevivem no estado de Rondônia, a fim de que estas os autorizem a abater os últimos cajus das suas reservas. […]



Não tenhamos dúvidas: se a humanidade tivesse hoje de votar para escolher um estilo de vida mundial, poderia efetivamente fazê-lo. Atualmente, mais de quinhentos satélites ativos emitem para a Terra os sinais radiodifundidos da modernidade. Imagens uniformes, em mil milhões de ecrãs de televisão, alimentam os mesmos desejos nas margens do Amur, do Yangtze, do Amazonas, do Ganges e do Nilo. Mesmo nas regiões privadas de qualquer corrente elétrica (por exemplo, o Níger, na África Ocidental), as parabólicas e os painéis solares transportam milhões de pessoas «para fora da sua existência aldeã e para uma dimensão planetária», para usar a expressão do secretário-geral do Clube de Roma, Bertrand Schneider. […] 
Nunca como agora as pessoas souberam tanto e estiveram tão informadas sobre o resto do mundo. Pela primeira vez na sua história, a humanidade está unida por uma imaginação comum.”

Hans-Peter Martin e Harald Schumann, A Armadilha da Globalização, Lisboa, Terramar, 1998, pp. 19-21




20 dezembro 2011

Cultura global ou globalização de culturas?

A que se assiste nos dias de hoje com o suporte e impulso da revolução permanente no domínio das tecnologias da informação e comunicação: cultura global ou globalização das culturas? Assistimos à afirmação duma cultura global única, dominadora, imperial, que acabará por abafar as culturas locais e as suas especificidades culturais e particularismos locais e regionais? Nomeadamente, iremos presenciar, a médio prazo, uma americanização (como já assistimos a uma espécie de europeização ou ocidentalização) do nosso estilo de vida e padrões de consumo? Estaremos prestes a assistir à emergência dessa cultura global que irá standardizar/uniformizar comportamentos, ditando critérios e modas? Ou o que está a acontecer é tão-só um processo de afirmação a nível global das várias culturas locais que, nas atuais condições estimuladas pelas novas tecnologias de comunicação, se difundem mais rapida e eficazmente pelo mundo? Será que as culturas locais se globalizam numa mesma dinâmica onde ocorre um processo de difusão e uma receção motivada pelo gosto pelo exótico e pelo diferente?

26 novembro 2011

Efeitos terríveis da globalização

“[…] uma pequena aldeia na Noruega árctica pode assistir à destruição total do seu futuro financeiro porque os seus investidores financeiros investiram em força num produto do Citigroup designado por obrigações de dívida securitizada. Quando os longínquos mercados imobiliários da Florida e da Califórnia entraram em colapso, o valor das obrigações de dívida caiu a pique e a aldeia norueguesa teve de encerrar jardins-de-infância e serviços de saúde para os idosos.”
David M. SMICK, O Mundo é Curvo – os perigos ocultos da economia global, Lisboa, Editorial Presença, 2009, p. 15

11 outubro 2011

A globalização da responsabilidade não significa diluição da responsabilidade

Até meados do século XX, a determinação das responsabilidades e a identificação dos responsáveis pelos desastres ambientais e ecológicos era uma tarefa possível. Contudo, num mundo globalizado, as consequências e as responsabilidades são também globais. Isto não significa que não haja responsáveis. Mais: isso não quer dizer que não haja países mais responsáveis do que outros. Vejamos, a esse propósito, estes dados relativos ao período que vai de 1950 a 1986:
Os Estados Unidos possuíam 5% da população mundial que era responsável por 30% das emissões de carbono, ao passo que a Índia possuía 17% da população mundial e era responsável por menos 2% das emissões.  É evidente um desigual contributo para a situação resultante da emissão de CO2.
Os países em via de desenvolvimento só atingirão os níveis dos países desenvolvidos no contributo para a existência de gases com efeito de estufa no ano 2038. Se pensarmos que um pessoa deve arranjar aquilo que estraga na proporção da sua responsabilidade, então, como afirma Peter Singer em Um Só Mundo – A Ética da Globalização (Lisboa, Gradiva, 2004) “os países desenvolvidos devem ao resto do mundo na solução para o problema da atmosfera” (p.65). Um mundo globalizado com responsáveis globais, não significa a diluição das responsabilidades.