"Todos nós somos hóspedes da vida. Não há nenhum ser humano que saiba o significado da sua criação, exceto ao nível mais primitivo e biológico. Não há nenhum homem nem nenhuma mulher que saiba qual o objetivo (se é que existe...), qual o significado possível de ter sido «atirado» para o mistério da existência. Por que é que há algo em vez de nada? Por que é que eu existo? Somos hóspedes deste pequeno planeta, de uma urdidura infinitamente complexa, quiçá fortuita, de processos e mutações evolutivas que, em inúmeros estádios, poderia ter seguido um outro curso ou testemunhado a nossa extinção. Acabámos, aliás, por nos tornar hóspedes vândalos, produzindo lixo, explorando e destruindo outras espécies e recursos. Estamos a transformar rapidamente este ambiente extraordinariamente belo e intrincadamente perfeito, e inclusive o espaço sideral, numa lixeira venenosa. Há caixotes do lixo na Lua. Por mais inspirado que seja o movimento ecológico que, juntamente com a emergente perceção dos direitos das crianças e dos animais, é dos poucos capítulos esclarecidos do nosso século, é bem possível que tenha vindo demasiado tarde."
(George Steiner, Errata: revisões de uma vida, Lisboa, Relógio D'Água, 2009, pp. 70-71)
